Sobre guerreiros e amigos
29Mar08
Parei para ler e reler o “diário de bordo” do Marcos e do Marcelo e os comentários dos amigos que acompanham a viagem à distância, todos guerreiros. Fiquei emocionado! Pensei como é engraçada essa coisa de amizade. Você pode estar separado por quilômetros de distância e ela não deixa de existir. Recordei que recentemente recebi uma mensagem do Alexandre, amigo que está morando acima da Linha do Equador. Ele dizia que conversara recentemente com outro grande amigo, o Eduardo – o mesmo que foi comigo ao hospital, e que sentira saudades da turma reunida. De fato, dá saudades. Por uns três anos a nossa terça-feira era sagrada no Olivinho, em Petrópolis, bar de outro amigo, que já morreu. O bar continua lá e é nosso recanto, quando estamos na Serra e podemos nos encontrar.
Em uma das últimas vezes que estive com o Eduardo comentamos como essa coisa da idade que vai avançando é engraçada. Somo amigos há quase 20 anos e isso foi rendendo frutos. Amigos dele se tornaram meus amigos e vice-versa. Ao longo desses anos descobrimos semelhanças entre o Comandante, como eu chamava o pai dele, e o meu. Coincidentemente, os dois morreram no mesmo ano, com diferença de menos de 30 dias entre um e outro. Eduardo esteve lá quando meu Velho morreu. Não pude estar com ele quando o Comandante deixou a tropa.
Tenho amigos que são meus amigos há mais de 20, 30 anos. Felizmente, muitos. Infelizmente perdi contato com alguns, mas quando encontrá-los, tenho certeza, continuarão sendo amigos, mesmo que não tenhamos, por algum motivo, mantido contato. Amigo é como família: está em algum lugar e você sabe disso, mesmo que não saiba aonde. Outros amigos, de infância, de escola e de outras ocasiões, infelizmente foram embora sem se despedir. Um deles, creio que o mais famoso de todos, morreu duas semanas após nosso último encontro: Gonzaguinha foi fazer um show em Petrópolis, de sua turnê “Cavaleiro Solitário”. Nos encontramos no camarim e recordamos o dia em que nos conhecemos. Demos boas risadas, tomamos um uísque e fui embora. Duas semanas depois soube pelo rádio do acidente fatal. Lendo os relatos no blog do Marcelo e do Marcos, inseri “Guerreiro Menino”, uma de suas melhores e mais conhecidas músicas. Lendo a letra e ouvindo a música, renovei.
Existem também amizades que são mais recentes. É o caso com essa dupla de viajantes que faz um trabalho social de encher os olhos, o “Cinema na Roça”, projeto que deu origem à viagem. Foi também por causa do “Cinema na Roça” e a possibilidade de desenvolvermos outros projetos sociais que conheci o Marcos, durante uma reunião em Macaé. A empatia foi instantânea. Só fui conhecer o Marcelo no dia da despedida simbólica no Rio, no Beco do Alemão. Creio que ocorreu o mesmo. Lendo o blog, vi o quanto os dois sentiram a despedida porque o Marcos precisou voltar ao Rio. Mais alguns dias o Marcelo encerra a jornada e pega o caminho de volta vivendo novas experiências.
A construção da amizade é algo natural. Depende de empatia, de afinidade e de um interesse mútuo em ter mais um amigo. Só mais um amigo. Lembrando Vinícius de Morais, eterno poetinha, digo que existem amigos que “nem imaginam que são meus amigos e o quanto são importantes para mim”. Sei que eles estão em algum lugar e isso é definitivo. Posso não estar com eles todos os dias, posso não falar com eles todos os dias, posso até não trocar e-mails todos os dias; posso não tê-los citado nesse texto ou em qualquer outro, mas eles são amigos, amigos de verdade. E estão ali. De uma forma ou de outra, estão comigo, oferecendo sua força e servindo como exemplo. Dos amigos, só extraio as coisas boas. As eventualmente ruins deixo de lado porque aprendi com o tempo que o mais importante é você gostar das pessoas apesar dos seus defeitos e não somente por suas virtudes. Isso é amizade e também é assim que se faz o amor.
Nesse momento recordo de um texto do Paulo Alberto Monteiro de Barros, ou melhor, do Arthur da Távola: “Afinidade”, no qual ele diz que é “o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos (…)”. “(…) Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto de onde foi interrompido. Afinidade é não haver tempo mediante a vida. É a vitória do adivinhado sobre o real, do subjetivo sobre o objetivo, do permanente sobre o passageiro, do básico sobre o superficial (…).” O texto inteiro, que é curtinho, é maravilhoso e definitivo. Encaro como uma possível retomada e assim espero. Tudo me faz falta, ao mesmo tempo em que sinto a presença sempre marcante.
A todos os leitores desse blog, aos amigos, novos e antigos; aos que ainda não conheci pessoalmente, aos que estão próximos e aos que estão longe, aos que sempre me deram força em minhas empreitadas, aos que brigaram comigo – porque amigos também brigam; aos que briguei, porque muitas vezes sou intempestivo, impertinente e impulsivo; aos que jamais discutiram por qualquer motivo; aos não disse ser amigo e não revelei o quanto são; aos que já foram ou não citados no blog – os que não foram, um dia serão, porque este espaço é dentre outras coisas, para “falar” dos amigos; aos meus irmãos, os de sangue e os que não são de sangue; aos que sua presença é marcante, estando próximo ou não; aos que dividiram uma mesa de bar; aos que provocaram ótimas gargalhadas ou aqueles com quem compartilhei lágrimas; aos que jamais beberam comigo por qualquer motivo; aos de todas as religiões, time de futebol, crença, gênero ou preferência política; aos de todas as classes sociais; aos negros, amarelos, azuis, verdes ou qualquer outra, porque não importa a cor da pele e sim o caráter… a todos, o meu profundo agradecimento por estarem aqui, dentro do coração.
Filed under: Cotidiano, Pessoas, Relacionamentos, Variedades | 3 Comments
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Vito meu irmão, foi de encher os olhos de lágrimas e o coração de alegria. Que bom fazer parte desse teu imenso e seleto grupo de amigos. Desses amigos de mais de 20 anos. E parabéns pela caminhada dos teus – e acho que já posso chamar de meu amigos – Marcos e Marcelo.
Que belo texto, fico orgulhoso de ser seu amigo, mesmo nao ter sido citado ainda por voce. abs
é minha primeira visita no site e gostei muito. parabens pelos textos. quem tem amigos assim sempre terá um tesouro. com seu texto me lembrei dos meus amigos e hoje liguei para alguns, obrigado, msmo não conhecendo voce e naõ sendo seu amigo.