hoax

Nas últimas 24 horas recebi de quatro pessoas diferentes mensagens a respeito de um estudo que condena o consumo do refrigerante Fanta Uva, em razão deste conter supostamente três elementos químicos: Fenofinol, Almeído e Voliteral (esse último tem até nome de remédio). Imensa mentira; é mais uma farsa que circula pelo mundo virtual e que nos faz perder tempo. Gostaria de descobrir a razão para alguém se dispõe a inventar esse tipo de coisa, que não acrescenta absolutamente nada. Na verdade esse texto, mal escrito por sinal, é o mesmo que circulou a partir de 2006, reeditado em 2007 e depois em 2010 e 2013. Primeiro falava do refrigerante Dolly, depois do Kuat. Parece que ganhou uma nova versão: agora chegou ao WhatsApp. O que me fez escrever esse post foi ter recebido de quatro pessoas esclarecidas. Impressionante como o ser humano tende a acreditar em coisas absurdamente idiotas antes de procurar alguma informação. Isso já foi até falado em uma rádio. Virou notícia, como se fosse verdade.
Como tenho a mania de checar informações, pesquisei na internet. Só encontrei referências em sites que desvendam essas tais “lendas urbanas” e por incrível que pareça, em um grupo de discussão sobre procedimentos do Ministério da Saúde – ou algo assim, no qual uma pessoa “revoltadíssima” escreveu que “o governo deveria tomar providências urgentes”, acusando os técnicos de “negligentes”. Minha pesquisa, claro, começou pelos três “elementos”, que sequer existem. E ao fazê-la, individualmente por cada “componente”, fui levado aos mesmos sites que desvendam esses “hoax”.
Pois é, o nome que se dá a isso, no mundo da internet, é “hoax”, que na tradução literal do inglês para o português pode ser “engano”, “farsa”, “trote”, “embuste”, ou algo assim. Pois bem, esses tais “hoax” viraram uma febre com o advento da internet, substituindo as antigas lendas urbanas. A última que lembro era a respeito de pessoas que estariam entrando em cinemas portando seringas cheias de sangue com HIV positivo, para infectar desavisados. Na época do falecido Orkut os “hoax” ganharam o nome de virais, e no Facebook são como rastilho de pólvora, mas também podem ser distribuídos por e-mail e agora WhatsApp. Além dos que falam sobre supostos estudos científicos que jamais existiram, há os que pedem ajuda financeira para tratamentos de saúde; os que alardeiam a distribuição de R$ 0,05 centavos por cada compartilhamento e até os que anunciam a distribuição de laptops e tablets. (Aqui vão alguns links a respeito: http://www.quatrocantos.com/lendas/286_fanta_uva.htm e http://nick-style.com.br/hoax-no-facebook/).
Todos eles são mentirosos e nos links postados acima será possível ver alguns que circularam e ainda circulam. Não confunda com spams ou malwares, cujo objetivo é outro.
A questão toda é a incrível capacidade das pessoas em acreditar de forma cega em coisas que não existem. Chego a pensar que os marketeiros de algumas campanhas políticas (e não quero começar uma discussão sobre tendências e ideologias políticas aqui) se aproveitam desse comportamento para balizar suas estratégias. Quanto mais absurdo e mentiroso, mais as pessoas acreditam. Esse sobre o refrigerante, então, é impressionante. Apesar de absurdo, o Hospital das Clínicas, citado, emitiu uma nota desmentindo o atendimento às supostas 23 pessoas que teriam tido problemas renais por causa do refrigerante.
Imaginem a imensa perda de tempo, o desvio de esforço para desmentir; o tempo gasto por outras pessoas em buscar informações que pudessem comprovar, ou não; o tempo que levei em uma pesquisa (embora rápida), na internet e para escrever esse texto; e o seu, de ler a respeito disso, quando poderia estar fazendo outra coisa mais produtiva. Ainda bem que alguém, com tempo e paciência, pesquisou isso antes e publicou em algum site. Caso contrário, eu teria muito mais trabalho… enfim, essa porcaria que vive enchendo o meu Facebook (só que eu oculto e denuncio todos) e agora o WhatsApp, não leva a absolutamente. Bem que as pessoas poderiam ter um pouco mais de zelo quando forem enviar alguma coisa aos seus amigos e contatos. Já ajudaria bastante.

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Obra e arte

14abr15

libros-antiguos-2 Vito Diniz – Cada palavra era meticulosamente montada, letra por letra, no velho prelo encostado no fundo da oficina, quando ele, com sua paciência quase milenar exercia a arte herdada de seus ancestrais, que trouxeram da Europa as mais “modernas” técnicas de impressão do século XVIII. Parecia inimaginável que aquele senhor de óculos com aros finos, quase translúcidos como as lentes dos óculos, ombros curvados e passo lento, pudesse montar as páginas dos livros que imprimia de forma artesanal; uma preocupação quase insana, diante de tanta tecnologia, de tantos equipamentos modernos, de tantas novidades, que permitiriam uma impressão mais rápida e “limpa”. Pouco se importava com os computadores e as técnicas modernas; com as impressoras ágeis e impressões em diversas cores. Ele gostava do velho papel de linho que comprava com um fornecedor na área do Cais do Porto e chegava com um perfume amadeirado. Usando técnicas que aprendera com seu avô e foram aperfeiçoadas por ele e pelo pai, preparava a própria tinta que assentava sobre as folhas virgens, uma a uma durante as impressões. Nenhuma falha; nem pressão a mais, nem a menos e uma a uma as páginas iam sendo “pintadas”, dando uma espécie de forma à vida dos personagens mais diversos. Em cada uma, a perfeição do trabalho manual, com a riqueza de detalhes com a qual ele se preocupava. Não importava quantos exemplares fossem: um, dez ou cem. Não importava se muitos ou poucos leriam os livros, mas eles estariam lá, impressos à sua maneira, de forma inigualável e inestimável; e após lidos por uns e outros, iriam para uma bela estante, ostentando capas duras, algumas produzidas em couro, estampadas em alto e baixo relevo com as gravuras que ele mesmo produzia, “batidas” nas peças que ele mesmo esculpia, tão calma e meticulosamente quanto as páginas que compunha. Dia após dia prosseguia naquele trabalho incansável de restauração de obras clássicas, de forma artesanal e meticulosa, como imaginara que as primeiras obras tivessem sido impressas. E sua estante e a de outros enchia de livros, com os melhores autores da história, com as melhores histórias dos melhores autores. E assim prosseguia a vida. Lenta e calmamente, perseverando quando ninguém acreditava mais possível prosseguir.


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Somos a consequência de nós mesmos, ou seja, de nossos próprios atos. Constatei isso aos 10 anos, quando um dia, ao jogar bola na rua com meus amigos, ignorei os conselhos de minha mãe para usar tênis e estourei o dedão do pé esquerdo. Voltei para casa com a unha pendurada e o dedo ensanguentado. Passei dias sem poder jogar bola, calçando com dificuldade e torcendo para que ninguém pisasse no dedo arrebentado. Porém, continuei jogando descalço, tomando os cuidados necessários para que o fato não se repetisse. Daí me veio outra constatação: experiência é tudo e as mais dolorosas são também as mais marcantes.

Estou escrevendo isso porque há muito tempo cheguei a uma conclusão lógica: vivemos diariamente dilemas e dicotomias. Ao mesmo tempo em que pensamos em fazer algo, algo inesperado pode nos levar para outra rota. Buscamos atalhos e muitas vezes encontramos desvios bem mais longos do que esperávamos, nem sempre mais fáceis. Os obstáculos se colocam à nossa frente. E daí que se chega à outra conclusão: é preciso haver foco, objetivo. Sem isso, nada feito. A vida gira em torno de algumas leis da Física e da Matemática, quase simples assim, como a lei da ação e reação, por exemplo. Em alguns momentos a reação é chamada de consequência.

Já a Matemática está relacionada a nós, ao nosso cotidiano, em diversas representações. Uma das mais evidentes é que podemos ser vistos ou vivermos como um conjunto unitário. Porém, na verdade, somos um conjunto formado por milhares de outros conjuntos: biologicamente somos um conjunto de células; pela visão da Química, um conjunto de elementos e componentes, como H20, que compõe 80% do nosso organismo; pela Física, somos um conjunto de peso, massa e movimentos; a História nos prova que somos um conjunto de nossas decisões; a Geografia nos situa em algum lugar, nos tornando estatística de outros conjuntos. E por aí vai.

O problema do ser humano é que ele se impõe limites. E quando há limites, tudo fica mais difícil. Não que não haja necessidade de se delimitar alguns conceitos, claro que sim. Porém, ficar atado a eles sem conseguir olhar o todo, impede que se prossiga o caminho como se deseja. Quem mais usa a Matemática com olhos para os conjuntos infinitos, ou seja, quem não se impõe limites muito rígidos, tende a avançar mais. Quem se prende demais a pré-conceitos, tende a ser mais restrito em seu caminhar. Entretanto, tudo depende dos objetivos.

Outra coisa que precisa estar alinhada são os conceitos e a prática. Teoria e execução devem, ou deveriam caminhar juntas. A demonstração da eficácia dos conceitos é fundamental para a vida. Einstein obteve sucesso, assim como Newton, porque conseguiram enxergar além dos que todos em sua época e comprovaram. Platão, Sócrates e outros pensadores continuam “vivos”, porque suas teorias foram testadas ao longo do tempo, embora pudessem ser contestadas em sua época. Assim como eles, os sofistas, que continuam por aí, também conseguiram provar que uma boa “conversa” é capaz de enganar a muita gente, porém, não o tempo inteiro.

O simples fato de “ser”, já é uma consequência que vai gerar outras. Ser um “Ser”, com maiúscula, simplesmente, já é uma consequência de algo. Tudo na vida está encadeado, assim como nada acontece por acaso. O livre arbítrio nos dá a possibilidade de escolhermos, mas nem sempre, há mais de duas opções. Os caminhos, em geral, são divididos por bifurcações, não por encruzilhadas, pelo simples fato de que quando há mais do que duas opções as chances de acerto são reduzidas a um quarto das possibilidades. Então por que reclamar, se as nossas chances, na maioria das vezes são de 50% de acertos? É uma questão de ponto de vista. Alguém menos otimista, ou eu mesmo, em algum momento, posso pensar que na verdade tudo tem 50% de chance de dar errado.

Risco todo mundo corre. Para tudo na vida há um risco e o que se precisa é saber administrar os riscos; risco calculado. Quando se atravessa a rua com o sinal fechado, há um risco mínimo de ocorrer um problema, correto? Pode ser, mas depende do ponto de vista, das condições climáticas, da sua própria disposição para que esta ação simples e rotineira dê certo. Atravessar a rua com otimismo significa que você o fará com a cabeça erguida, atento a qualquer imprevisto, passos firmes, sem se apavorar com esse ato simples. Daí que se no sentido contrário vier alguém correndo, meio atônito, olhando para o sinal vermelho torcendo que ele não abra no meio do caminho e sem perceber a sua presença, você ainda terá tempo de desviar, ou mesmo ajudar aquele que por algum motivo leva consigo certo medo, receio ou apavoramento.

Então, mesmo que tudo não esteja 100% certo, mesmo que haja indicativos de erro, mesmo que a vida não esteja andando como você calculou, mesmo que seus atos tenham sido aparentemente errados, dissonantes ou controversos, mesmo que suas certezas tenham sido pulverizadas com o tempo, assim como as minhas e as de muitos, mesmo que a Bolsa tenha caído, mesmo que o saldo bancário seja insuficiente, mantenha sempre em você mesmo um fio de esperança, contido em todos os fundamentos: nada é definitivo, a não ser a morte. Nada é para sempre, a não ser que você permita; tudo é possível desde que você planeje e execute. Acaso é apenas uma palavra contida no dicionário, não uma consequência de seus atos.

Aprenda com os erros, busque reduzir a margem de erro, não exceda nas cobranças pessoais e nem de seus semelhantes, não pense ser o exemplo martirizado, não margeie a sua própria vida, conduza-a. Mesmo que aos olhos do mundo não pareça correto. Seja feliz acima de tudo e qualquer coisa, sem ser um bobo alegre. Ser feliz não quer dizer rir de tudo, em todos os momentos. Quer dizer que você aceita a si próprio, como você, com suas falhas e virtudes, que você encara, reconhece e aceita a possibilidade de tudo na vida ter um “efeito dominó” e que sua virtude principal é viver!

 


Na vida a gente passa por momentos interessantes. Às vezes conflitos internos, dúvidas, insegurança; eventualmente conflitos externos, problemas no, ou com o trabalho, mas basta um sorriso, uma mão amiga, uma palavra de conforto, quem sabe uma boa leitura, uma música, um canto de um pássaro, algo que toque você de maneira especial e pronto: as coisas começam a mudar. Fico impressionado como o ser humano, pelo menos aqueles um pouco mais sensíveis, são suscetíveis às oscilações. Não são mudanças repentinas de humor, são oscilações naturais no comportamento. Nada de bipolaridade!

Tenho amigos de todos os tipos: desde os insensíveis, completamente refratários a qualquer tipo de intempérie, até o mais vulneráveis que balançam até mesmo quando o “oi” é dito de forma diferente. Não é questão de segurança ou insegurança, é de personalidade e comportamento. Cada um tem o seu. Aprendi que o importante é convivermos com as diferenças, com as mudanças, nos adaptarmos às situações, porque na verdade, as situações estão ali e não são elas que vão se adaptar a você.

Não sei bem o motivo, mas me veio à cabeça uma frase do filme de animação “Carros”, que assisti dezenas de vezes com meu filho mais novo: “encontre um ritmo confortável e siga em frente”. E a vida tem que ser assim, apesar dos pesares, das forças contrárias e de você mesmo. Talvez esse seja o grande segredo: encontrar um ritmo confortável, o que admito, não é fácil.

Aliás, “Carros” não é um filme só para crianças. É para qualquer idade; e não apenas para apaixonados por automobilismo. É uma lição de vida, assim como a maioria dos filmes de animação produzidos nos últimos tempos. Se a vida a gente é um filme, com certeza há muitos filmes que servem de inspiração para a vida de todos nós! Que bom seria se cada pudesse contar suas histórias. Não histórias de grandes conquistas, de grandes realizações, mas as mais simples, aquelas de encontros e reencontros, de partidas e chegadas, de momentos simples. Para ser grande, não são necessários grandes feitos, grandes realizações, porque afinal de contas, toda grande caminhada começa com apenas um passo: o primeiro.



Dilma, capa da Newsweek: em alta no Brasil e no exterior

E lá se foi o sétimo ministro do governo Dilma Roussef; o sexto após suspeitas de irregularidades. Carlos Lupi (Trabalho) deixou o ministério após Antônio Palocci (Casa Civil), Alfredo Nascimento (Transportes), Nelson Jobim (Defesa), Pedro Novais (Turismo), Wagner Rossi (Agricultura) e Orlando Silva (Esportes). Destes, apenas Jobin não esteve envolto por acusações. Aos poucos a presidenta vai substituindo a herança deixada por seu antecessor e mandando um recado direto aos partidos aliados a respeito de sua postura.

Quando assumiu o governo, há menos de um ano, muita gente achava que a presidenta não conseguia identificar quais contornos daria à sua administração. Pouco mais de um ano depois, deixa claro aquilo que ela não quer. Com isso, a imagem internacional da primeira mulher a ocupar o cargo máximo da República está nas alturas. Ganha prestígio internacional, e com ele, poder. A ponto de ser a primeira dirigente mulher a abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas.

Dilma mira em dois pontos fundamentais com a intolerância à corrupção, ou pelo menos, a escândalos: seu futuro político e do próprio PT e os investimentos externos. Sabe-se no mundo lá fora que um dos fatores que pesam contra investimentos no Brasil sempre foi a corrupção, associada à morosidade do Estado e outros fatores. Porém, a corrupção desacredita a máquina brasileira perante investidores estrangeiros e a presidenta não está disposta a passar de guerrilheira à vendilhona.

Internamente, em um momento no qual o Brasil clama por decência no serviço público e a Receita Federal investiga até seus próprios auditores, ela ganha força diante dos partidos aliados porque mostra quem tem a caneta na mão e inverte o papel com a base, deixando de ser refém ao expor feridas purulentas dos políticos tradicionais.

Até o momento, a postura firme da presidenta no quesito honestidade está ganhando respaldo internacional, força na mídia e simpatia junto à sociedade. Não é à toa que em setembro sua popularidade era mais alta que a de Lula e FHC, no mesmo período de governo, segundo pesquisa CNI/Ibope (veja aqui). Além disso, Dilma Roussef esvazia o discurso da oposição, que colou no governo de seu antecessor o selo de “o mais corrupto do Brasil”.

Com tolerância zero às falcatruas – pelo menos àquelas que vazam na mídia, a presidenta começa a pavimentar dois caminhos: o primeiro das sucessões estaduais, mostrando que o PT não está mais disposto a compactuar com irregularidades, sejam elas internas, seja dos aliados. O segundo caminho é o da sua própria reeleição, visto que com a saúde combalida do ex-presidente Lula – ícone e maior nome do PT, o Partido dos Trabalhadores precisará de um “plano B”, caso ele não possa – ou não tenha condições, de ser o candidato, como se imaginava que ocorreria após os quatro anos de Dilma.

No campo da economia o Brasil dá sinais de que tem “gordura” para queimar com suas reservas cambiais alcançando patamares inéditos. A redução da máquina do Estado, iniciada no governo FHC tem ajudado muito, e até o PT reconhece isso. É preciso, ainda, ajuste fiscal, redução de despesas, melhoria na infraestrutura e criação de nichos econômicos em regiões pouco desenvolvidas.

A crise europeia, pelo visto, não anda nem fazendo cosquinha – pelo menos por enquanto – na economia brasileira, apesar da inflação ter subido um pouco. Porém, é bom colocar as barbas – ou melhor, as madeixas – de molho, já que os Estados Unidos, nossos principais importadores, não andam lá tão bem das pernas. Melhor mesmo é reforçar as parcerias com os asiáticos, especialmente a China, que possui em caixa mais que o dobro do que a Europa inteira precisa hoje para se reerguer.


O Tempo

18nov11

Desde que fiz 40 anos tenho pensado cada dia mais sobre quanto vale o tempo. Ultimamente ando cantarolando com certa frequência àquela música do Caetano, que fala Dele: “tempo, tempo, tempo, tempo…”. O tempo de estar com a família, com os amigos, de viver coisas simples – que são as boas coisas da vida, o trabalho, o tempo das revelações diárias – o amanhecer, o entardecer, o cair da noite, o silêncio das madrugadas, invariavelmente ocupados com uma simples leitura ou algum estudo, ao contrário de quando eram ocupadas com trabalho.

Aos 40 anos faz-se um balanço da vida e o meu começou aos 39, com um certo apavoramento, chegando à conclusão que provavelmente teria menos tempo de vida dali para a frente, do que o decorrido até então. Sem querer acabei parafraseando Mário de Andrade, pensando nas jabuticabas na bacia. Fiz a conta das coisas já vividas e noves fora umas e outras, concluí que fiz muito mais do que esperava, mas muito menos do que pretendia, ou deveria ter feito. E de certa forma isso causou um sentimento de vazio, misto de preocupação com um desconforto por ter tantas coisas imaginadas e poucas realizadas.

Assustou-me o fato de ter menos tempo de vida para tudo o que se gosta, como um caminhar pela praia no amanhecer ou entardecer, ouvindo as ondas quebrarem na arrebentação e se espalharem preguiçosas pela areia, para recolher-se pouco depois, mais mansamente, iniciando novamente um ciclo sem fim, interrompido somente de tempos em tempos com mar bravio, agitado por ventos mais nervosos, que é como se a natureza nos chamasse a pensar sobre tudo o que temos feito contra ela. Em compensação, há menos tempo para as coisas que não se gosta, lembrando novamente o Mário de Andrade.

Próximo aos 41 tornei-me pai pela terceira vez. Foi como se remoçasse alguns anos. Alguns bons anos, porque me trouxe de volta a relação com meu velho pai – que na época já havia morrido – a quem só passei a compreender realmente após ter me tornado pai de duas belas meninas, entretanto de maneira inversa: agora eu era o pai, e não o filho. Sobre isso, lamentei o fato de meu filho não ter convivência com o avô, pois ele foi um grande sujeito, ótimo amigo, um guia – de coisas boas e ruins, que com o tempo de vida foi se moldando, tornando-se mais afável, mais carinhoso, mais compreensivo, um pouco melancólico, entretanto menos tolerante com a ignorância de um mundo em mutação. Sorte ele – meu filho – ter podido alegrar o outro avô, na época com problemas de saúde.

Estranha essa coisa do tempo, que às vezes trás repetições da vida, mas de uma forma diferente, porque a cada segundo, nada é igual ao que passou. Quando meu filho mais novo veio ao mundo, eu tinha praticamente a mesma idade de meu pai, quando nasci. Ele, assim como eu, foi o terceiro filho, e igualmente como no meu caso, o avô paterno já havia morrido. Meu avô paterno morreu no mesmo ano em que nasci, enquanto meu pai morrera cinco anos antes dele nascer, mas meu filho teve um breve convívio com o avô materno, o que no meu caso não aconteceu, pois o pai de minha mãe morrera quando ela tinha apenas cinco anos. São as repetições do ciclo da vida, modificadas conforme o desejo de algo ou alguém que rege o universo, delimitando tempo, espaço, ações, reações e outras coisas. Jamais acasos.

Recentemente, lendo um livro muito interessante sobre o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha – que pretendo ainda ter tempo para fazer, li uma frase simples, contudo, reveladora que falava sobre a relação entre pais e filhos: “a preocupação do filho em relação ao pai é muito diferente daquela do pai em relação ao filho”, o que é absolutamente uma verdade, porque os mais jovens, embora queiram – em sua maioria, o melhor para seus pais, têm um tempo diferente, visto que o mundo daqueles que vêm depois é outro, muitas vezes antagônico dos que vieram antes.

Essa coisa do tempo é muito interessante. Impressionante pensar que algo tão intangível como ele tenha tanta importância na nossa vida, especialmente depois do advento da internet, do telefone celular e outras coisas tecnológicas, que em vez de nos proporcionarem mais tempo pelas supostas facilidades, atribuíram uma importância tal e carimbaram um “urgente” em coisas tão banais quanto a responder uma simples carta, ou melhor, mensagem eletrônica – ou e-mail, para os iniciados.

É claro que a tecnologia trouxe uma série de praticidades – e não vale falar delas agora, mas ao mesmo tempo – olha ele aí de novo, conferiu pressa ao mundo, parecendo ter encurtado os dias, acelerando o tic-tac do relógio, espremendo as manhãs entre uma madrugada não dormida e uma tarde acelerada, porque o relógio não dá descanso, não para, não tira folga, não falta ao serviço, não fica doente, não sai pra vadiar, não pensa nos segundos seguintes, muito menos nos passados. E me recordo de um provérbio que diz que “o tempo passado não volta”. De fato, não há retorno para o que se fez ou deixou de fazer. Não há como retroceder no tempo como Super Homem, carregando Lois Lane nos braços, fora da órbita terrestre, girando em sentido contrário ao da rotação. Não há “efeito borboleta” que seja capaz de refazer o que se foi, pelo menos exatamente como era antes, nos dando a oportunidade de agir dessa ou daquela maneira, tentando reparar erros ou melhorar as coisas, porque tudo na vida possui uma razão específica, um encadeamento, sem acasos e sem que saibamos ao certo, onde começa ou termina o tal do livre arbítrio. Porém, não se iludam: o acaso não existe.

Por certo, na melhor das hipóteses, esse tal de livre arbítrio, que vem a influenciar – ou ser influenciado, não sei – pelo velho conhecido Tempo – agora como sujeito de todas as coisas, no final das contas me parece um grande engodo, porque não há uma encruzilhada no fim “daquele” caminho, mas no máximo uma bifurcação, levando para a esquerda ou para a direita, desprezando todos os pontos cardeais anotados na bússola, que aliás, esteja aonde estiver, aponta apenas para uma mesma direção – o Norte. Então, cabe ao tal livre arbítrio a escolha de outras direções, porém, contudo, entretanto, todavia, elas não estão em todos os mapas e nem sempre são opções viáveis.

A mim, parece pouco razoável esse negócio de haver apenas duas opções: direita ou esquerda, certo ou errado, bem ou mal, bom ou ruim, sim ou não; mas filosoficamente falando, sem querer me comparar a qualquer pensador de qualquer tempo – eis o mesmo, novamente – possivelmente seria menos  razoável ainda, existir mais de duas, eis que uma terceira via trataria de ser não mais que um vazio, pois o que é um “talvez”, se não um imenso vazio, uma grande incerteza, uma inconsistência sob todos os aspectos, visto que ele – o “talvez”, antes de mais nada é uma lacônica e ininteligível negação de qualquer uma das possibilidades, seja o sim ou o não, o certo ou o errado, o belo ou o feio? Essas não são ofertas na prateleira do supermercado, não vêm com marca registrada e nem código de barras. São decisões da vida. E quão difícil e doloroso seria se existissem mais de duas opções, pois se com apenas duas, nos tornamos tão confusos, complexos, dicotômicos, paradoxais, antagônicos, duvidosos, vacilantes, transversais, tergiversantes, imprevisíveis… imagine-se com mais de duas opções!

O que seria do branco – na fotografia, presença total de luz – não fosse o preto – ausência completa de luz, no diafragma de uma câmera? Eis que o equilíbrio feito pela medida certa de abertura e velocidade, calculando o tempo – que surge mais uma vez, agora como contagem de milésimos, décimos, segundos, minutos… se faz preciso para registrar uma fotografia daquele instante de tempo, então com valor de momento. Daí, podemos concluir que o tempo, não mais que ele e apenas ele, é capaz de mover o mundo, fazer as coisas acontecerem e ser um digno e justo aliado, conferindo equilíbrio necessário para todas as coisas, muito embora a balança sempre dê a impressão que colocaram um peso a mais nas suas costas, ou que alguém anda querendo te atribuir uma responsabilidade a mais, te enganar ou tão somente surrupiar alguma coisa, nem que seja tão somente um tempinho a mais ou a menos, dependendo do ponto de vista, ou da situação.

Paro e olho para trás. É possível ver o tempo que passou, encadeando uma história muitas vezes sem nexo, muitas vezes sem grandes diferenças da maioria dos mortais, pois que somos todos semelhantes, porém com algumas diferenças. Assim como o tempo que passou e não volta mais, mas que certamente renovará o ciclo, contando uma história idêntica, às vezes trazendo um dèjá vu, que é aquela sensação de que determinado momento ou situação já foi vista ou vivida. O tempo futuro está lá no horizonte, que se vislumbra muito longe, quase perdendo de vista, pois a caminhada começa agora, nesse instante, no exato momento em que se termina uma coisa e começa outra, num ciclo sempre renovado do qual constam interseções unindo os diversos conjuntos unitários, finitos, infinitos e até os vazios, que formam o grande conjunto universo.

Enquanto isso o tempo, só ele, percorre a sua vida sem que você se dê conta do quão importante ele é para você e você para ele, numa simbiótica relação de cumplicidade, sem valorizar os momentos, por mais ínfimos que sejam, por mais desprezíveis que possam parecer; sem olhar para os lados e indiferente, seguir, ou recuar. Mas o tempo está ali, sem que você perceba, sem fazer ruídos, sem chamar a sua atenção, sem relâmpagos e nem trovões, sem o mar bravio, sem ventos, nem tormentas, mas apenas como uma brisa. Imperceptível e indecifrável tempo.




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