A República do Chuvisco

29set11

Nos últimos anos, o município de Campos dos Goytacazes tem vivenciado uma série de fatos políticos extremamente conturbados. Desde 2004, foram sete prefeitos diferentes com os afastamentos de Arnaldo Viana (2004), Carlos Alberto Campista (2005), Alexandre Mocaiber (2008) e Rosinha Garotinho (2010 e 2011). Os eleitores ainda foram às urnas em uma eleição suplementar, após o afastamento definitivo de Carlos Alberto Campista.

Rosinha e Garotinho retratados pelo chargista Ique, do Jornal do Brasil

Em 2004, o ex-aliado e ex-vice-prefeito de Garotinho, Arnaldo Viana, foi afastado da Prefeitura. Assumiu o então vice, Geraldo Pudim, hoje secretário de Governo de Rosinha. Viana retornou ao poder no mesmo ano. Já em 2005, o advogado Carlos Alberto Campista, eleito com o apoio de Arnaldo Viana, ou seja, contra Garotinho, foi cassado. Assumiu o presidente da Câmara, Alexandre Mocaiber, eleito posteriormente em pleito suplementar.

Mocaiber enfrentou um processo de afastamento, em 2008, sob acusação de irregularidades. Na vacância, o vice, Roberto Henriques, então no mesmo partido de Garotinho (e hoje desafeto), comandou o município por 43 dias. Em seguida, Mocaiber retornou. No ano passado, com o afastamento por seis meses, de Rosinha Garotinho, o prefeito foi o presidente da Câmara, Nélson Nahim.

Todos estes fatos tornam a política campista ainda mais confusa. O período coincide com a ascensão do grupo, ou melhor, do clã Garotinho, ao poder, numa trajetória que, desde sua gestão à frente do governo do Estado do Rio, conta com denúncias de mau uso dos recursos públicos, tráfico de influência, condenação de assessores por envolvimento com o crime organizado e escândalos, como o que ficou conhecido por “propinoduto”, que afastou o subsecretário de Administração Tributária, Rodrigo Silveirinha, em janeiro de 2003.

  • Leia aqui textos e matéria sobre o caso, na revista Veja, no site Conjur, no blog de Ricardo Gama, a respeito de nota publicada no jornal Extra, e aqui a cronologia do caso no site do Centro de Conhecimento do Basel Institute on Governance (dedicado, entre outras ações, a medir a corrupção governamental), do International Centre for Asset Recovery (na tradução literal, Centro Internacional de Recuperação de Ativos).

Desde muito tempo o ex-governador protagoniza embates tanto no Judiciário quanto no Legislativo. No início de seu mandato como governador, expulsou o então presidente da Assembleia Legislativa e hoje governador, Sérgio Cabral Filho, e o então primeiro-secretário da Alerj, Jorge Picciani, de seu gabinete, no Palácio Guanabara. Logo após se envolveu em um caso de escutas telefônicas e denúncias contra parlamentares, que ele jamais conseguiu comprovar. Assessores seus foram acusados de envolvimento no “escândalo das quentinhas”, que detonou o império do empresário Jair Coelho.

A carreira política do deputado federal Anthony Garotinho começou no PT, mas foi pelo PDT, que se elegeu prefeito de Campos pela primeira vez, em 1988, com mandato de 1989 até 1992. Em seguida, transferiu o domicílio eleitoral para a cidade vizinha de São João da Barra, concorrendo a deputado estadual. Garotinho foi secretário de Agricultura de Leonel Brizola, projetando seu nome na política estadual. Em 1994, perdeu a eleição, mesmo com o apoio de Brizola e do PDT, para Marcello Alencar (PSDB), elegendo-se prefeito novamente em 1997. Renunciou em 1998, para ser candidato a governador, vencendo o pleito nas hostes de Brizola, com quem brigou em 2000, por conta das eleições municipais daquele ano.

Já em 2001, o hoje deputado federal renunciou ao cargo de governador para que sua mulher Rosinha fosse candidata em seu lugar e ele, a presidente. No ano de 2002, obteve mais de 15 milhões de votos na disputa pela presidência da República e apoiou Lula, no segundo turno, contra José Serra. A reivindicação pelo controle da Petrobras o levou para a oposição. Garotinho se sentiu preterido e passou a desancar Lula e seus aliados políticos. Sobre o PT, disse em uma ocasião que era “o partido da boquinha”.

Sua tentativa de ser candidato a presidente, desta vez pelo PMDB, em 2006, foi por água abaixo após uma greve de fome de 11 dias. Em meio a acusações de recebimento de dinheiro impróprio para suas campanhas, dizendo-se perseguido pela mídia, especialmente pelo jornal O Globo e pela revista Veja, e pelo governo Lula, do qual o PMDB fazia parte da base aliada. Durante o mandato de Rosinha Garotinho, como governadora, foi secretário de Segurança Pública. Até hoje já foi filiado ao PT, PDT, PSB, PMDB e agora, PR.

É evidente o apego do clã Garotinho, pelo poder, sempre associado a políticas assistencialistas, como a “moradia a um real”, “restaurante a um real”, “passagem a um real”, e outras. Hoje, além dele, que exerce mandato de deputado federal, a mulher, Rosinha, é prefeita – afastada, até o momento – de Campos e a filha Clarissa, deputada estadual. O filho Vladimir é o presidente do diretório municipal do Partido da República.

Veja aqui algumas matérias relacionadas:

RÁPIDAS

  • Hoje pela manhã, a prefeita continuava acampada no estacionamento da Prefeitura, junto a assessores e contratados terceirizados da Prefeitura de Campos. Tanto ela, quanto seu marido, o deputado Garotinho, que apearam alguns adversos do poder, ao longo de sua carreira política, afirmam que a decisão da juíza Gracia Cristina Moreira do Rosário, da 100ª Zona Eleitoral de Campos, que cassou os diplomas de Rosinha e do vice-prefeito, Doutor Chicão, e os tornou inelegíveis por três anos, a partir de 2008, “é absurda”. E acusam uma articulação do governador Sérgio Cabral Filho.
  • Após a divulgação da sentença, todo o dia de ontem (quarta-feira, 28) e pela manhã de hoje, foram usados meios de comunicação para convocar a população para manifestações de apoio à prefeita afastada. Moradores de Ururay, localidade de Campos, foram incitados, na tarde quarta-feira, 28, a fecharem a BR-101, uma das principais rodovias do País.
  • O presidente da Câmara de Campos, irmão do deputado federal Garotinho, Nélson Nahim, recusou-se a assumir da Prefeitura com base em uma tese da procuradoria da Câmara, de que o trâmite para que ele assumisse o mandato não estava correto. O advogado Paulo Vizela, em comentário no blog do jornalista Alexandre Bastos, da Folha da Manhã, jornal de Campos, com grande circulação na Região Norte do Estado do Rio, discorda. Veja aqui.
  • A Justiça informou que no caso de recusa do presidente  do Legislativo em assumir a função de prefeito, o vice-presidente, Rogério Matoso, será empossado prefeito. Seria o oitavo prefeito de Campos, desde 2004.
  • Rosinha Garotinho falou à rádio CBN na manhã desta quinta-feira e disse à jornalista Lúcia Hipólito que só sai da Prefeitura de Campos, algemada. Ouça aqui o áudio que varreu a internet ao final da manhã.
  • Diversos órgãos da Prefeitura de Campos amanheceram fechados. Contribuintes reclamaram que foram informados de que “não haveria expediente”.

(Imagens extraídas da internet)

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