Obra e arte

14abr15

libros-antiguos-2 Vito Diniz – Cada palavra era meticulosamente montada, letra por letra, no velho prelo encostado no fundo da oficina, quando ele, com sua paciência quase milenar exercia a arte herdada de seus ancestrais, que trouxeram da Europa as mais “modernas” técnicas de impressão do século XVIII. Parecia inimaginável que aquele senhor de óculos com aros finos, quase translúcidos como as lentes dos óculos, ombros curvados e passo lento, pudesse montar as páginas dos livros que imprimia de forma artesanal; uma preocupação quase insana, diante de tanta tecnologia, de tantos equipamentos modernos, de tantas novidades, que permitiriam uma impressão mais rápida e “limpa”. Pouco se importava com os computadores e as técnicas modernas; com as impressoras ágeis e impressões em diversas cores. Ele gostava do velho papel de linho que comprava com um fornecedor na área do Cais do Porto e chegava com um perfume amadeirado. Usando técnicas que aprendera com seu avô e foram aperfeiçoadas por ele e pelo pai, preparava a própria tinta que assentava sobre as folhas virgens, uma a uma durante as impressões. Nenhuma falha; nem pressão a mais, nem a menos e uma a uma as páginas iam sendo “pintadas”, dando uma espécie de forma à vida dos personagens mais diversos. Em cada uma, a perfeição do trabalho manual, com a riqueza de detalhes com a qual ele se preocupava. Não importava quantos exemplares fossem: um, dez ou cem. Não importava se muitos ou poucos leriam os livros, mas eles estariam lá, impressos à sua maneira, de forma inigualável e inestimável; e após lidos por uns e outros, iriam para uma bela estante, ostentando capas duras, algumas produzidas em couro, estampadas em alto e baixo relevo com as gravuras que ele mesmo produzia, “batidas” nas peças que ele mesmo esculpia, tão calma e meticulosamente quanto as páginas que compunha. Dia após dia prosseguia naquele trabalho incansável de restauração de obras clássicas, de forma artesanal e meticulosa, como imaginara que as primeiras obras tivessem sido impressas. E sua estante e a de outros enchia de livros, com os melhores autores da história, com as melhores histórias dos melhores autores. E assim prosseguia a vida. Lenta e calmamente, perseverando quando ninguém acreditava mais possível prosseguir.

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